O que internamente foi visto como uma derrota do governo em maio pode agora se transformar num trunfo do país em conversas com investidores estrangeiros. Há cerca de dois meses, a medida provisória 910, sobre regularização fundiária e chamada por opositores de "MP da Grilagem", caducou na Câmara porque o governo não teve força política para aprová-la.

A MP será substituída por um projeto de lei, do deputado Zé Silva (PSDB-AM), que estabelece critérios mais aceitos por ambientalistas para a regularização de terras na Amazônia. Este é um dos itens apontados por investidores estrangeiros para fazer uma advertência ao Brasil no sentido de que, se não houver ações de preservação da Amazônia e medidas de proteção a minorias e a direitos humanos, os fundos não mais investiriam no país. O primeiro alerta foi feito em janeiro deste ano e levado ao presidente Bolsonaro pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Em reunião, Campos Neto disse ao presidente que a política ambiental do governo poderia provocar danos econômicos ao país. Naquele momento, o Brasil esperava investimentos estrangeiros que ficaram paralisados por conta do discurso do ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, que demonstrava pouco apreço do governo pela preservação ambiental. Agora, o governo brasileiro prepara uma vídeoconferência com responsáveis pelos maiores fundos globais de investimento para mostrar que a política ambiental do governo mudou.

O encontro está sendo organizado pelo presidente do Banco Central, Campos Neto, e da parte brasileira, sob o comando do vice-presidente Hamilton Mourão, vão participar os ministros da Casa Civil, Braga Neto; da Agricultura, Tereza Cristina; do Meio-ambiente, Ricardo Salles e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Os fundos juntos somam US$3,7 trilhões em ativos em todo o mundo. Hamilton Mourão quer mostrar aos investidores que o Brasil tem compromisso em combater o desmatamento na Amazônia, com o combate às queimadas e também à grilagem de terras na região. O projeto em discussão no Congresso, agora, permite a regularização automática de áreas de apenas um módulo e estabelece critérios mais rigorosos para a regularização de áreas de até seis módulos - enquanto a MP 910 previa a possibilidade de regularização por georreferenciamento para áreas de até 15 módulos, o que representa área muito grande, e não de pequenos agricultores. A mudança é significativa, conforme afirmou o vice-presidente.

Segundo ele, a mudança atendeu também a área ambiental.

O projeto também altera o marco temporal - e estabelece o ano de 2008, como era anteriormente, e não 2014 como propunha a Medida Provisória que caducou. No entanto, para cumprir todas essas promessas que o Brasil fará aos investidores estrangeiros, a área econômica terá de liberar recursos para as ações do Programa Brasil Verde -2, comandado pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

"Estamos desde 11 de maio sem receber um real", disse o vice, aguardando a liberação de recursos.

Ele disse que estão sendo preparadas ações para combater as queimadas na temporada da seca que começa no mês de agosto.